No Dia Nacional do Espiritismo, 18 de abril, o 11º Congresso Espírita do Distrito Federal reuniu reflexões sobre o sofrimento psíquico e os caminhos possíveis para a reconstrução do sentido da vida. A palestra “Quando a alma se esvazia: sofrimento psíquico e perda de propósito”, conduzida pelo médico psiquiatra Wesley Assis, abordou a relação entre vazio existencial, desconexão interior e processo de cura espiritual.
Segundo o palestrante, o esvaziamento da alma está ligado a uma forma de viver voltada exclusivamente para o exterior. “A alma se esvazia quando, desde cedo, é orientada a viver apenas para fora”, afirmou. Para ele, há momentos da vida em que esse movimento se inverte e o indivíduo é levado a olhar para dentro, especialmente diante de perdas, mudanças ou interrupções de papéis.
A palestra apresentou o sofrimento como parte de um processo mais amplo de consciência. “Quando começamos a sofrer, automaticamente Deus já está despertando a nossa consciência”, disse Wesley. Nessa perspectiva, a dor não é compreendida como erro ou ruptura, mas como início de um processo de transformação.
O expositor também destacou que, na visão espírita, a experiência humana está inserida em um percurso de evolução. “A reencarnação tem um propósito de misericórdia”, afirmou, ao explicar que a vida seria um processo contínuo de aprendizado e depuração. Nesse contexto, o sofrimento estaria associado a uma necessidade de cura que se desenvolve ao longo da trajetória do Espírito.
Outro ponto central da palestra foi a relação entre conhecimento e vivência. Para Wesley, a espiritualidade não se resume à prática formal ou à frequência em espaços religiosos. “Não é simplesmente alisar um banco a cada semana no templo”, disse. “Espiritualidade é a vivência real daquilo que cremos.”
A reflexão também abordou o conceito de saúde sob a ótica espiritual. De acordo com o palestrante, a condição do indivíduo não se define apenas pelo estado físico, mas pela forma como ele se encontra internamente. “Não é como se encontra o corpo, é como se encontra o indivíduo”, afirmou. Ele destacou que é possível haver equilíbrio emocional e espiritual mesmo em situações de doença, a depender da forma como a experiência é compreendida e integrada.
Nesse sentido, o sofrimento foi apresentado como uma oportunidade de aprendizado. “A saúde mental envolve aprender com o sofrimento, sair fortalecido com ele e entender as adversidades como lição”, asseverou Wesley, ao mencionar que essa compreensão já é reconhecida por abordagens contemporâneas na área da saúde.
O palestrante também chamou atenção para a necessidade de ampliar o olhar sobre situações de dor e desequilíbrio. “Quando temos uma situação de doença, normalmente pensamos que está tudo errado. E não há nada errado. Está tudo certo. O corpo sempre tem razão”, garantiu. A afirmação propõe uma leitura da doença como expressão de processos internos que precisam ser compreendidos, e não apenas combatidos.
Ao longo da exposição, Wesley defendeu a importância do autoconhecimento e da mudança de perspectiva diante das dificuldades. “Quando vemos o sofrimento com raiva, impotência e desespero, ele perde o sentido e vira castigo”, esclareceu. “Precisamos entender o sofrimento como desafio, não como ameaça.”
A palestra também destacou o papel da esperança como elemento central nesse processo. “O ser que não sabe sofrer sem esperar, desespera”, disse, ao relacionar o enfrentamento das adversidades à capacidade de sustentar sentido mesmo em contextos difíceis.
Após a palestra, o tema foi aprofundado em painel com os expositores Adeilson Salles e Wesley Assis, com mediação de médica pediatra Márcia Léon, representante do Departamento de Família da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil). O debate reforçou a importância de integrar conhecimento, experiência e prática no cuidado com as saúdes emocional e espiritual.
(Ana Guimarães)