Para o psiquiatra Thiago Aguiar, o Espiritismo pode nos conscientizar mais ainda sobre o conteúdo nas redes que estamos consumindo e como ele nos afasta dos valores que queremos abraçar
O tema da saúde mental, na era da conexão digital, abriu a tarde desse sábado no 11º Congresso Espírita do DF. Após a apresentação do músico Maycom Leal, subiu ao palco o psiquiatra e presidente da Federação Espírita Amazonense, Thiago Aguiar, que apresentou a visão espírita do atual momento de hiperconectividade. Como discernir entre as patologias da mente e as influências espirituais? Quais os impactos espirituais no uso desordenado e excessivo das mídias sociais e tecnologias?
O Brasil é o segundo país mais conectado do mundo, atrás da África do Sul por poucos minutos. O brasileiro fica conectado à internet em média dez horas por dia. Tal avanço tecnológico teve início na década de 1950, com o surgimento do computador para uso eminentemente científico ou militar. Não havia, portanto, impacto sobre a vida das pessoas. Já na década de 1980, acontece a informatização doméstica. Os computadores entram nos lares. “Não sabíamos o que viria diante daquele início de relação homem-máquina, que se expandiu na década de 90 com a internet moderna. Surge então a vida on-line, virtual, com a ruptura dos espaços geográficos. Nos anos 2000, a conectividade já está em grande escala e surge a identidade social digital”, sublinhou o palestrante ao iniciar o tema.
Facebook, Twitter, Orkut, Instagram, TikTok e a IA (Inteligência Artificial) revolucionaram o conhecimento sobre as ferramentas digitais. A IA traz novos aspectos do papel cognitivo do ser humano. “Eu dou bom dia ao ChatGPT, pois quero que as máquinas me respeitem”, disse em tom de brincadeira.
Ele destacou as transformações que essa revolução tem causado: absolutamente tudo está hoje em meio digital, a conectividade é massiva, tudo está interligado e em tempo real. Segundo Thiago Aguiar, não estávamos preparados para tantas mudanças. “Não imaginávamos que as ferramentas digitais fossem impactar nossas vidas dessa maneira”, e citou como exemplo as transformações nas profissões, especialmente as que envolvem produção de conteúdo e cálculos, que podem ser substituídas pela IA. “Existe um tempo e um ritmo diferente no mundo que vivemos hoje”, afirmou.
Representações e adoecimento na era digital
Nesta vida mais rápida, há um senso de urgência que não foi vivido por nossos pais e avós. Daí que, para além do impacto nas profissões, as redes sociais influenciam as relações. “A partir do perfil na internet, existe uma comparação social quase constante que envolve a representação das nossas vidas. As mídias representam a vida que eu quero ter, não a que eu tenho. Na internet, vivemos uma vida sem nenhuma oscilação. É quando a neurose, a insatisfação e a frustração se instalam. A pressão por performar passou a fazer parte das nossas existências. As mídias se tornaram um marketing pessoal. Ninguém consegue viver essa realidade todo tempo, pois todos vivemos a experiência do sofrimento”, observou.
Mas quais, então, os impactos na saúde mental, especialmente de crianças e adolescentes? “Não existem estudos que conectem o uso da internet a suicídios na infância e adolescência ou ao aumento de crianças deprimidas ou com diagnósticos de TDAH”, enfatizou o palestrante. A questão, segundo ele, é que todo esse panorama vai contra a transformação essencial que o Espiritismo propõe. “Essa mudança não vai acontecer quando estivermos ilhados no Instagram”, disse.
Numa sociedade hiperconectada não há lugar para experiências necessárias que promovam desconfortos e sofrimento. A métrica das visualizações, likes e número de seguidores torna os seres humanos dependentes tecnológicos. É neste momento que a perspectiva espírita pode auxiliar a entender qual o caminho para um melhor equilíbrio em nossa vida.
A contribuição do Espiritismo
Ao citar o Espírito Emmanuel na mensagem “Olhai”, Thiago Aguiar destacou que a vigilância precisa ser uma visão com entendimento. “Não vamos parar o fluxo do mundo, viver sem conexão, sem internet. Não é isso que representa saúde mental. É preciso examinar o que chega até mim para que eu possa entender como aquele conteúdo impacta o meu humor, a minha alegria de viver ou se o que me chega exaure, irrita, cansa. Sem essa consciência, a vigilância se torna cega”, ponderou o palestrante.
Thiago citou novamente Emmanuel ao afirmar que não devemos buscar a paz na ausência do ruído, mas no equilíbrio das nossas almas. A quietude é o alicerce do progresso, escreveu o benfeitor e. Então, é preciso questionar por que vivemos uma fase tão pouco disposta à quietude? O que temos medo de encontrar quando não vivemos a nossa vida simples e cotidiana? O que não estamos dispostos a ver na nossa intimidade? Por que não fazer contato com a interioridade?
De acordo com o médico, é preciso utilizar a higiene tecnológica e a psicoeducação sob uma perspectiva espírita para que tenhamos uma vida melhor e mais plena com Jesus em um mundo com avanços tecnológicos também positivos em inúmeras áreas da vida. “Isso é importante para que não nos tornemos reféns da internet. Precisamos viver uma vida com liberdade, para que saibamos ir e vir diante de tudo isso. Que momentos podemos nos retirar um pouco do mundo para que ele não nos absorva inteiramente?”
Ao concluir a reflexão, Thiago Aguiar admitiu que a tecnologia é inevitável, porém é possível evitar o adoecimento mental, a alienação. “Salvar a humanidade do vício digital não deve ser nossa preocupação. Devemos nos questionar o que, no uso da tecnologia, está nos afastando de quem queremos ser, dos valores sob os quais queremos conduzir nossa vida. É preciso encontrar essa travessia”.
(Ana Cristina Sampaio Alves)